Piso Nobre - A Biblioteca como Templo do Saber

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Transcrição

Comece por notar o contraste com o exterior despojado do edifício. Este interior rico, quente e envolvente é conseguido através da harmonia dos diversos elementos, desde os pavimentos em pedra cinza e branca aos tetos com pinturas perspetivadas. Em sintonia com a moda internacional, que cultivava o gosto pelo exótico, as estantes e escadas retráteis, decoradas a ouro, integram motivos chineses, técnica conhecida por chinoserie, e as seis mesas de leitura com embutidos são feitas de preciosas madeiras tropicais.

Para vincar esta sensação de espetacularidade e melhor compreender o simbolismo que está por detrás da construção deste espaço, propomos que se coloque no limiar da porta principal. É neste ponto que a experiência ganha sentido. Observe como, cruzando as três salas, se abre um eixo diante de nós, que incita a avançar em direção ao retrato de D. João V. O rei é centro de toda a composição. Personifica o Sábio Cristão, que assim unifica a fé e o conhecimento, um estatuto que serve de modelo aos estudantes. É este misto de sagrado e profano que impera no Piso Nobre e que se decifra com o percurso que se inicia na porta. Como é alcançado? O movimento em direção à imagem do rei lembra o caminho que um fiel faz da porta da igreja até ao altar. Aqui, no lugar do fiel, o estudante. No altar, no lugar da figura divina, o monarca. Vários elementos à volta do retrato encomendado a Domenico Dupra revelam esta vontade de associar a imagem do rei sábio ao paladino da fé. Destacamos os anjos trompeteiros e os querubins que seguram as cortinas a emoldurar a grande pintura, mas também as armas depositadas sobre o altar. Estas terão sido aqui colocadas para recordar a batalha travada contra os turcos no Cabo de Matapão, a sul da Grécia, na qual Portugal participou, a pedido do papa. As naus portuguesas terão tido um papel essencial na vitória, dando ao rei um enorme prestígio internacional.

O espólio da biblioteca foi-se mantendo em boas condições graças às características do edifício do século XVIII, que tem paredes exteriores muito grossas e um interior revestido a madeira. Para afastar os insetos que se alimentam de papel, as estantes do Piso Nobre são de carvalho, madeira que liberta um odor que repele esses bichos. Ainda existem também alguns morcegos, embora poucos, que durante dois séculos ajudaram a combater os insetos. Saem de noite para caçar e beber água e libertam alguns dejetos, o que obriga a que, ao final do dia, se protejam com toalhas de couro as maravilhosas mesas de madeiras exóticas do Piso Nobre.